Eleiçoes 2026: o voto da revolta e a escolha que temos pela frente

Agora são dois candidatos. No primeiro turno, Flávio Bolsonaro terminou à frente, com 47,05% dos votos válidos, contra 45,14% de Lula. No dia 25 de outubro, voltaremos às urnas. Não escolheremos apenas entre Lula e Flávio. Escolheremos entre dois projetos bastante diferentes de país.

Temos 20 dias. Durante esse tempo, pretendo reunir informações que penso que nos ajudarão a compreender o que de fato está em jogo.

Não se trata de dizer a ninguém em quem votar. Trata-se de combater algo que considero perigoso numa democracia: o voto movido apenas pela revolta, pelo medo ou pela rejeição. Precisamos conhecer as alternativas e suas consequências. Mãos à obra.

Qual a ideologia partidária?

O GPS Partidário 2026, da Folha de S.Paulo, constrói uma régua ideológica a partir do comportamento dos partidos: votações, frentes parlamentares, coligações, migrações e doações. Nessa régua, o PT está claramente à esquerda, mas distante do extremo, ocupado por partidos como PSTU e UP. O PL aparece no extremo direito, atrás apenas do Novo.

É importante entender o que isso significa. A régua mede posição relativa: mostra onde cada partido está em relação aos demais. Ela não classifica partidos como democráticos ou antidemocráticos. Para isso, seria preciso examinar também posições e comportamentos diante das instituições, do pluralismo e dos direitos fundamentais, tema que fica para outro dia.

Concretamente essa ideologia se materialliza em diferentes propostas de governo:

PT: desenvolvimento econômico com distribuição de renda. O Estado tem papel central na redução das desigualdades, na oferta de serviços públicos, na valorização do trabalho e na proteção social. Trabalhadores de menor renda e usuários dos serviços públicos tendem a ser os mais beneficiados. O risco está nas contas públicas: essas políticas exigem arrecadação e controle de gastos.

PL: protagonismo do mercado e conservadorismo nos costumes. O projeto defende menos impostos, burocracia e regulação, posições conservadoras nos costumes e políticas mais duras de segurança pública. O Estado continua responsável por saúde, educação e proteção aos mais vulneráveis. Empresas, empreendedores e investidores tendem a ser os mais beneficiados. O risco está na distribuição: o crescimento, sozinho, não garante que a renda chegue a quem tem menos.

O que trazem os programas dos candidatos?

Os programas registrados no TSE mostram que a ideologia dos partidos importa.

Lula apresenta um programa de continuidade, prometendo manter a valorização do salário mínimo e o Bolsa Família, aprofundar a cobrança de impostos dos mais ricos, acabar com a escala 6x1 e manter a meta de desmatamento líquido zero. Na segurança, aposta na cooperação entre União, estados e municípios, na inteligência e no ataque ao dinheiro do crime organizado. Valoriza a participação social, com conselhos e conferências. O programa diz pouco sobre como estabilizar a dívida pública.

Flávio apresenta um programa que retoma o projeto do governo do seu pai, Jair Bolsonaro. A prioridade é a segurança, com endurecimento das medidas repressivas. Na economia, propõe cortar impostos e ministérios, privatizar e fazer os acordos entre patrões e empregados valerem mais que a lei. Mantém programas sociais, apresentados como “porta de saída” para o trabalho, e retoma o Casa Verde e Amarela, mas não apresenta uma política de valorização salarial ou de combate às desigualdades sociais. No meio ambiente, combina a meta de zerar o desmatamento ilegal até 2029 com o direito de exploração econômica dos recursos naturais. Como estratégica democrática, em lugar da participação social, a força para mudar institutições.

Os números que importam para quem tem menos

Há muito o que lembrar sobre o governo Bolsonaro, a começar pela pandemia, que será tema de outro dia. Hoje, quero olhar para os indicadores que afetam diretamente a vida dos mais vulneráveis: renda, emprego, preços, pobreza, fome e violência. Alguns dados de 2026 ainda não estão disponíveis.

O que esses números nos dizem?

O salário mínimo é a referência de renda de 61,9 milhões de brasileiros, entre aposentados, trabalhadores com e sem carteira e empregadas domésticas, segundo o Dieese. Entre 2019 e 2022, ele apenas acompanhou a inflação: em quatro anos, o ganho real foi de cerca de 1%. Nesse período, a inflação chegou a 10% em 2021, a pobreza atingiu mais de um terço da população e o Brasil voltou ao Mapa da Fome. Entre 2023 e 2026, o mínimo teve ganho real de cerca de 11%, o desemprego caiu ao menor nível já medido, a pobreza e a extrema pobreza recuaram aos menores níveis da série e o país saiu do Mapa da Fome.

Mas nem tudo vai bem para os mais pobres no governo Lula. Os juros altos encarecem o crediário e o cartão de quem mais precisa de crédito, e muitas famílias seguem endividadas. A violência também atinge, antes de tudo, os mais pobres. Aqui os números mostram queda nos dois governos: as mortes violentas recuam desde 2018.

Se você vive com até 3  salários mínimos, aposentadoria ou Bolsa Família, a pergunta é direta: em qual dos projetos a qualidade da sua vida parece ter mais importância? E o que cada programa promete para a sua renda? O de Lula promete manter a valorização do mínimo e acabar com a escala 6x1. O de Flávio não propõe política de valorização do mínimo e defende que acordos entre patrões e empregados valham mais que a lei.

Há quem vote no projeto do PL por segurança, por valores ou pela rejeição à corrupção. São preocupações legítimas. O que proponho é que essa escolha seja feita conhecendo também esses números.

Podemos estar indignados com a corrupção que atravessa todos os Poderes. Podemos, e devemos, querer mudanças. Mas revolta não é projeto de país.

Talvez a pergunta mais importante destes 20 dias seja justamente esta:

Movidos pela revolta, estamos conseguindo enxergar o que pode vir pela frente?

Deixe a sua resposta e vamos debater e pensar em como superar essa lacuna.

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