Eleições 2026: qual a nossa condição de participação?
Eleições 2026: qual a nossa condição de participação?
Recentemente participei do programa Pensando em Minas, da TV Assembleia, discutindo “participação social para além do voto”. Hoje, dia 29 de setembro, volto ao tema no Seminário Democracia, Participação e Controle Social, na Escola do Legislativo da Assembleia Legislativa de Minas Gerais.
Há um elemento que torna essa reflexão especialmente oportuna: em 4 de outubro, milhões de brasileiros irão às urnas para escolher presidente da República, governadores, senadores e deputados federais e estaduais. E uma pergunta não me sai da cabeça: sabemos o suficiente sobre as questões mais importantes para nós, brasileiros, e sobre a visão e a posição dos candidatos diante delas?
Afinal, exceção daqueles filiados a partidos políticos, votar deveria significar afirmar, com autonomia, para onde queremos ir, a partir da escolha entre diferentes projetos e propostas apresentados pelos concorrentes aos cargos públicos.
Essa é uma das promessas extraordinárias da democracia — governo do povo, pelo povo e voltado ao bem comum: cada cidadão, um voto! Independentemente de renda, escolaridade ou posição social, o voto de cada um tem o mesmo valor. Mas será que essa igualdade quantitativa no voto se traduz também em força para produzir efeitos nas eleições e nas decisões dos poderes da República?
Temos muitas razões para considerar que não. Estamos muito distantes das experiências da democracia direta das cidades gregas, nas quais uma parcela bastante restrita da população - homem, branco, proprietário - participava diretamente das decisões na arena pública.
Agora, vivemos em democracias representativas, com sufrágio praticamente universal. Essa transformação histórica e necessária, trouxe também desafios ainda não equacionados: entre eles, a qualidade da informação que chega às pessoas para o seu exercício de escolha e o risco de manipulação em massa.
A filósofa alemã Lisa Herzog, em Citizen Knowledge: Markets, Experts, and the Infrastructure of Democracy, chama a atenção justamente para a importância do conhecimento dos cidadãos para o projeto democrático. Segundo ela, a pessoa comum não tem informações suficientes sobre os sistemas políticos, instituições, políticas públicas e sobre a natureza dos problemas que afetam as sociedades. Essa lacuna também aparece na relação de consumo que temos com o mercado.
A autora recupera um exemplo histórico, que por ser extremamente perturbador, é capaz de evidenciar os riscos que enfrentamos como cidadãos comuns — e isso muito antes das redes sociais. Quando se acumulavam evidências científicas, relacionando o cigarro ao câncer de pulmão, a indústria do tabaco investiu pesado, na produção da dúvida. Empresas e associações do setor financiaram os poucos cientistas que não aceitavam essa relação e recorreram a pesquisadores de grande prestígio, embora de outras áreas do conhecimento, para alimentar publicamente a ideia de que a questão permanecia em aberto. Durante décadas, instituições públicas conviveram com essa estratégia sem impor medidas regulatórias. Elas foram retardadas e milhões de pessoas morreram.
E o que isso tem a ver com participação social?
Tudo. O exemplo evidencia o quanto a promessa feita pelas democracias ainda não foi realizada. Nós, enquanto sociedade civil, não temos igual capacidade de influir nos rumos da vida coletiva. Estado e mercado dispõem de recursos, informações, especialistas e estruturas de comunicação que lhes conferem capacidade de influência muito superior à sociedade civil, ainda que, numericamente, sejamos infinitamente superiores.
Para fazer frente a essa desigualdade de influência e ao risco de manipulação, a autora propõe à sociedade civil a formação de uma infraestrutura do conhecimento capaz de fazer chegar às pessoas comuns informações de qualidade que as auxiliem a compreender o que está em jogo. Não se trata de dizer em quem votar, que posição adotar frente a questões relevantes ou como escolher os produtos que vamos consumir. Trata-se de construir uma base de conhecimento confiável e acessível, que permita às pessoas confrontar as informações e versões que recebem do Estado, do mercado e dos diferentes grupos de interesse.
Essa base pode ser construída com a participação de universidades, instituições nacionais e internacionais de pesquisa, imprensa profissional, organizações da sociedade civil, movimentos sociais, pesquisadores e redes de cidadãos capazes de produzir e compartilhar conhecimentos.
Enquanto a infraestrutura do conhecimento ainda se coloca como possibilidade no horizonte, podemos enquanto cidadãos comuns olhar com mais cuidado para as eleições que se aproximam.
O cidadão comum e as eleições de 2026
Minha percepção, acompanhando o debate eleitoral até aqui, é que programas de governo e propagandas eleitorais estão muito distantes de analisar e enfrentar, com a profundidade necessária, os grandes problemas do país. Os candidatos frequentemente se esquivam de falar objetivamente sobre questões difíceis e sobre as escolhas que precisarão ser feitas.
Será que conhecemos suficientemente os grandes desafios brasileiros? Sabemos distinguir informações confiáveis daquelas produzidas ou selecionadas para influenciar nossas escolhas? Conhecemos as diferentes interpretações sobre as causas dos problemas e suas possíveis soluções? E sabemos o que os candidatos que disputam nosso voto pensam e propõem diante dessas questões?
É nesse ponto que quero fazer um pequeno exercício pessoal. Nos próximos dias, pretendo fazer algo semelhante ao que experimentei nas eleições de 2022: selecionar alguns dos grandes problemas brasileiros, reunir informações de fontes reconhecidas e identificar, na medida do possível, como partidos e candidatos se posicionam diante deles.
Não para dizer a ninguém em quem votar. Mas para colocar em xeque o que penso saber, confrontar informações e diferentes pontos de vista e ampliar as condições para a assertividade do meu voto. Se isso te inspirar, venha refletir junto!