Duas visões, dois futuros no horizonte: o que está em jogo?

Na terça-feira, 22 de setembro, dois discursos pronunciados em sequência na abertura da 81ª Assembleia Geral das Nações Unidas expuseram, com rara nitidez, as duas visões de futuro hoje em disputa no mundo.

Lula abriu a sessão e resumiu numa frase a escolha diante da comunidade internacional: "Somos chamados a optar pelo multilateralismo ou unilateralismo; democracia ou extremismo; soberania ou subordinação". Defendeu a diplomacia, a autodeterminação dos povos e a reforma das instituições multilaterais. No enfrentamento ao crime organizado, foi igualmente claro: "Não precisamos de porta-aviões vigiando nossas águas. Precisamos de cooperação". Cooperação, sim; intervenção estrangeira, não.

Trump, logo a seguir na mesma tribuna, apresentou uma concepção oposta. Exaltou a força militar norte-americana e citou a operação de 3 de janeiro em Caracas, que capturou Nicolás Maduro, como prova do que os Estados Unidos são capazes de fazer. Afirmou que o país poderá usar seu "poderio militar incomparável" para proteger seus interesses no Hemisfério Ocidental, isto é, nas Américas. Comparou os cartéis latino-americanos ao Estado Islâmico. Sobre o petróleo venezuelano, resumiu sua filosofia: os espólios pertencem aos vitoriosos.

Para nós, isso não é abstração. Em junho, os Estados Unidos classificaram facções criminosas brasileiras como organizações terroristas. É a mesma categoria que, no discurso de terça, serviu para justificar o uso da força militar na região.

Há pouco mais de um ano, escrevi aqui que o bombardeio americano ao Irã não era um ponto fora da curva, mas parte de uma estratégia de substituir instituições pela imposição. O discurso desta semana confirma essa leitura. A Venezuela foi atacada sem mandato da ONU, e o presidente da maior potência do planeta usou a tribuna da própria ONU para apresentar essa ação como modelo e ameaçar os que têm interesses divergentes.

É preciso ir além de nomes e perceber a dimensão da divergência. De um lado está a defesa de regras comuns e de mecanismos de cooperação próprios de uma ordem democrática, hoje submetida a enorme pressão. Do outro, a reivindicação explícita do direito de agir pela força, sem pedir licença a ninguém.

A sociologia ajuda a entender o que está em jogo. Como ensina Pierre Bourdieu, a posse desigual de capitais (econômico, cultural, político e simbólico) estrutura as relações entre pessoas, instituições e países. Ao longo do processo civilizatório, construímos mecanismos para limitar o exercício arbitrário desse poder: a democracia, a justiça, o direito, a diplomacia. A Assembleia da ONU é um deles. Usá-la para anunciar que a força dispensa regras é, em si, um gesto simbólico de peso que exige atenção.

Yuval Noah Harari, em Nexus, oferece uma chave para problematizar essa visão de mundo. Ele retoma o que o primatólogo Frans de Waal chamou, criticamente, de "teoria do verniz": a ideia de que continuaríamos sendo, no fundo, os caçadores da Idade da Pedra, vendo o mundo como uma selva governada pela lei do mais forte. A civilização seria apenas uma fina camada sobre uma natureza essencialmente egoísta, competitiva e violenta.

Harari recorre então à biologia e à história para mostrar que a "lei da selva" é um mito. A própria natureza é marcada por simbioses, cooperação e altruísmo. Se os seres humanos fossem movidos apenas pela competição e pela força, jamais teriam construído as gigantescas redes de cooperação que tornaram possíveis cidades, Estados, sistemas jurídicos, ciência e instituições políticas. Portanto, a cooperação não é um adereço da civilização; é condição que a torna possível.

Quando a diplomacia cede lugar à ameaça e a força passa a valer como argumento, entramos num mundo em que as diferenças de poder não encontram limites e os mais fracos ficam expostos. Mais do que votos nas eleições de seus países, os dois discursos disputam nosso apoio a um princípio: regras que limitam o poder e permitem a cooperação entre diferentes, ou o direito do mais forte de impor seus interesses.

Esse é o dilema a ser percebido. Nossa democracia é extremamente imperfeita e nos incomoda em muitos aspectos. Podemos reformar a casa e substituir os pilares que já não cumprem sua função. Ou podemos nos alinhar a quem reivindica para si um "poderio militar incomparável". No primeiro caso, o preço é o trabalho de promover as mudanças necessárias. No segundo, é viver à sombra do mais forte e aceitar que nossa democracia e nossa soberania também fiquem submetidas à vontade do mais forte.

O trabalho da primeira escolha não cabe só aos governos. Ele começará quando cada um de nós se recusar a naturalizar a lei do mais forte, no mundo e aqui no nosso país, e assumir a sua parte na reforma..

 

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