Conhecimento em Foco #1 Democracy Report 2026: por que este relatório merece nossa atenção?
No próximo semestre, o Brasil voltará às urnas para escolher o Presidente da República. Em períodos eleitorais, é natural o debate público se concentrar em candidatos, propostas e estratégias de campanha. No entanto, uma questão antecede todas as demais: como está a democracia que torna possível a realização de eleições livres e competitivas?
É com essa pergunta que inauguro a série Conhecimento em Foco, um espaço destinado à divulgação de livros, pesquisas, relatórios, documentários e outras referências que considero relevantes para ampliar nossa compreensão sobre democracia, participação cidadã, políticas públicas e desenvolvimento humano.
A primeira indicação é o Democracy Report 2026 – Unraveling the Democratic Era?, publicado pelo V-Dem Institute, da Universidade de Gotemburgo (Suécia). O V-Dem é hoje uma das principais iniciativas internacionais de pesquisa sobre democracia, reunindo milhares de especialistas e uma base de dados que acompanha a evolução de centenas de indicadores em aproximadamente 200 países.
O subtítulo é bastante desafiador: A Era Democrática está se desfazendo? A imagem é poderosa. Como um tecido que começa a perder seus fios, a metáfora utilizada pelos autores sugere que a democracia nem sempre desaparece de forma abrupta. Ela pode enfraquecer gradualmente, à medida que suas instituições, suas liberdades e seus mecanismos de controle vão sendo corroídos. Os dados apresentados pelo relatório ajudam a responder essa pergunta.
A Grande Reversão
A principal mensagem do relatório é sintetizada na expressão The Great Reversal – A Grande Reversão. Os autores mostram que os avanços conquistados durante a chamada Terceira Onda de Democratização, iniciada em 1974, vêm sendo gradualmente revertidos pela Terceira Onda de Autocratização, que tem sido percebida por estudos e pesquisas internacionais a partir do início dos anos 2000.
Essa reversão aparece de forma clara em diversos indicadores. Enquanto, no início do século XXI, dezenas de países ampliavam liberdades e fortaleciam instituições democráticas, em 2025 a tendência predominante passou a ser a deterioração desses mesmos direitos. Entre os dados apresentados pelo relatório, destacam-se:
O cidadão médio do mundo vive hoje em um nível de democracia semelhante ao observado em 1978, indicando que, numericamente, grande parte dos avanços conquistados durante a terceira onda de democratização das últimas décadas foi perdida.
Em 2025, cerca de 74% da população mundial (aproximadamente 6 bilhões de pessoas) vive em regimes autoritários, classificados pelo V-Dem como autocracias.
A liberdade de expressão tornou-se o indicador democrático que mais se deteriorou nas últimas duas décadas. Enquanto, em 2005, apenas 7 países registravam retrocessos e 25 apresentavam avanços, em 2025 o cenário se inverte: 44 países registram deterioração e apenas 11 continuam avançando.
· Os Estados Unidos, tradicionalmente considerados uma referência de democracia liberal, deixaram de ser classificados pelo V-Dem como uma democracia liberal em 2025, passando à categoria de democracia eleitoral, sendo identificados como um dos países atualemente em processo de autocratização.
Esses dados não apontam que todas as democracias em declínio caminharão inevitavelmente para autocracias. O que o relatório demonstra é que, na presente onda de autocratização,, os processos de erosão democrática têm ocorrido de forma lenta, gradual e frequentemente dentro das próprias instituições democráticas, diferentemente das rupturas abruptas que marcaram boa parte das transições autoritárias na segunda metade do século XX.
Por que essa leitura importa para este momento de eleição no Brasil?
Em uma eleição,, é comum o debate público ser dominado por disputas imediatas. Entretanto, eleições representam apenas uma das dimensões da democracia. A qualidade democrática também depende da liberdade de expressão, da independência das instituições, da existência de mecanismos de controle do poder, da transparência, da participação cidadã e da confiança nas regras do jogo democrático.
Independentemente das preferências políticas de cada eleitor, compreender essas dimensões contribui para um debate público mais qualificado e para escolhas mais conscientes. É justamente esse o mérito do Democracy Report 2026: oferecer evidências, indicadores comparáveis e uma perspectiva internacional para refletirmos sobre os desafios contemporâneos da democracia.
Por isso, em alguns dos próximos artigos da série Conhecimento em Foco deste mês, analisarei os principais conceitos e indicadores apresentados pelo Democracy Report 2026, bem como a evolução de diferentes dimensões da democracia em perspectiva comparada. O objetivo não será discutir preferências político-partidárias, mas compreender, com base em evidências, como diferentes democracias têm respondido aos desafios contemporâneos e quais lições essas experiências podem oferecer ao Brasil.
Em tempos de polarização e excesso de informação, ampliar nosso conhecimento talvez seja uma das formas mais importantes de fortalecer a democracia.