A lógica invisível da corrupção sistêmica: o pacto do campo de poder brasileiro

“O poder simbólico é um poder invisível que só pode ser exercido com a cumplicidade daqueles que não querem saber que lhe estão sujeitos.”

Pierre Bourdieu

 

Daniel Vorcaro, preso, e o Banco Master, liquidado, estão no centro de um novo grande escândalo de corrupção no Brasil. Desde o primeiro momento, em novembro de 2025, o debate dominante sugere a possibilidade do desvendamento de relações promíscuas entre operadores do sistema financeiro, altas autoridades, servidores públicos, políticos e advogados poderosos.”

Com o retorno de Vorcaro à prisão e o vazamento de parte de seus arquivos telefônicos, agora no início de março de 2026, tudo indica que o escândalo será mesmo capaz de balançar a República. Há citações de agentes das mais importantes instituições dos três poderes. Indícios apontam para a necessidade de investigação de possíveis interações promíscuas entre agentes que ocupam posições estratégicas no país, inclusive no Supremo Tribunal Federal, guardião da Constituição.

Do outro lado, nas redes sociais, imprensa e opinião pública, parece existir um clamor para que as investigações sejam aprofundadas, incluindo, se necessário, ministros do Supremo, senadores, deputados, ex-ministros, agentes do Banco Central. Vê-se relativo consenso de que a lei deve valer para todos e que os culpados sejam punidos. Talvez tenhamos atingido um ponto em que seja possível avançar para penalizações efetivas. Mas será que nessa melhor hipótese, ocorrência de processos e penalizações, o resultado é suficiente?

Tudo indicada que não. Chegar ao cerne da questão e fazer o país avançar exige mais. Exige olhar além e perguntar: Esse caso reflete um padrão das relações entre mercado, política, burocracia estatal e sistema jurídico no interior do campo de poder brasileiro? Será que a corrupção no Brasil é sistêmica?

O caso Master, assim como os grandes escândalos do passado — Orçamento Fantasma, Lava-Jato, Mensalão, Anões do Orçamento e tantos outros —, revela aspectos do funcionamento do campo de poder no Brasil. O denominador comum parece ser os mecanismos de apropriação indevida de recursos e vantagens pessoais, dentro ou fora da lei. O resultado prático, a captura do Estado, com circulação de influência e acesso privilegiado a decisões públicas e proteções ilegais ou ilegítimas. Essa compreensão coloca em evidência que a corrupção  por aqui não é apenas fruto de agentes oportunistas ou de “gente do mal”, como querem fazer crer algumas falas irresponsáveis. A questão é muito mais séria.

O particularismo como regra do jogo no campo de poder

Pesquisas comparadas ajudam a dimensionar o fenômeno. Ao analisar cerca de duzentos países com base em dados do World Values Survey, a cientista política Alina Mungiu-Pippidi identificou que, no início do século XXI, cerca de 81,5% dos sistemas políticos, burocráticos e econômicos do mundo operavam sob lógica particularista. Trata-se de uma lógica que torna a corrupção uma prática esperada e funcional para parte significativa dos agentes, ainda que ilegal e ilegítima.

Bo Rothstein, cientista político sueco, aprofunda essa discussão ao analisar o problema em contextos nos quais o fenômeno se apresenta recorrente. Para ele, a corrupção sistêmica é um fenômeno lodoso, de difícil superação, porque os atores sociais tendem a se alinhar ao comportamento dominante. Se há a percepção de que outros agentes aceitam jogar o jogo perverso da corrupção, torna-se racional também escolher jogar esse jogo, pois os ganhos potenciais podem superar os riscos. De tempos em tempos, ocorre uma ruptura desse equilíbrio institucional perverso e um caso de corrupção vem à tona. Mas isso não ocorre porque existe um real interesse em mudanças, mas devido a tensionamento entre os próprios grupos de esquemas fraudulentos.

Como a racionalidade é percebida em todo o universo social, a percepção geral de corrupção sempre tende a permanecer elevada em países em que o fenômeno é sistêmico. Por exemplo, a percepção da corrupção no Brasil, medida pela Transparência Internacional desde 1995, nunca se alterou significativamente. Em trinta anos de série histórica, o país praticamente andou de lado. No início da série, o Brasil pontuou 2,7 em uma escala de 0 a 10 — ou cerca de 27 em escala de 0 a 100. O melhor desempenho ocorreu em 2012, quando o índice atingiu 43 pontos, mas desde então o país voltou a oscilar para baixo. Em 2025, a pontuação foi 35.

Conclui-se que, após importantes leis – responsabilidade fiscal, transparência, acesso à informação, combate à corrupção e cooperação premiada – e desvendamento de sucessivos escândalos e investigações de grande impacto, especialmente depois dos anos 2000, o país permanece preso ao lodo de um equilíbrio institucional particularista que estrutura o funcionamento real do campo de poder. Responsavelmente é chegada a hora de admitir que a corrupção no Brasil não é resultado de desvios individuais de agentes corruptos. O caso Master expressa um equilíbrio no qual regras formais convivem com práticas espúrias que estruturam o funcionamento real das relações de poder no país. O caso Master não é uma exceção; é apenas o caso da vez. A pergunta que se coloca é como alterar esse curso.

 

Crises e mudança institucional

Ao estudar como a Suécia conseguiu sair de um contexto de corrupção sistêmica em um curto período - de aproximadamente 25 anos -  na segunda metade do século XIX, Rothstein argumenta que crises profundas podem abrir espaço para um novo pacto institucional capaz de romper padrões de corrupção.

No caso sueco, a derrota em uma guerra contra a Rússia gerou um risco existencial para o país. Houve um pacto político e econômico que resultou em reformas simultâneas em diversos subsistemas do Estado e da sociedade. A percepção geral era de que as regras do jogo estavam realmente mudando. Isso alterou as expectativas compartilhadas sobre as práticas possíveis e passou a ser racional para os atores a adesão às novas normas.

Crises políticas e o descortinamento de redes de corrupção podem desempenhar papel decisivo. A revelação das teias de relações que sustentam práticas corruptas pode provocar rupturas na crença da legitimidade do Estado, colocando a sociedade em risco e, no limite, deslocando o equilíbrio institucional dominante — mas isso só ocorrerá se grupos não envolvidos nas práticas reveladas se articularem para pressionar e construir um novo pacto institucional. Ou seja, para produzir transformações duradouras, é necessária a responsabilização efetiva dos agentes envolvidos e, ao mesmo tempo, reformas institucionais capazes de reduzir os incentivos ao particularismo.

Sem essa dupla dimensão — punição e transformação institucional — escândalos sucessivos tendem apenas a expor repetidamente o mesmo padrão, sem alterar as regras invisíveis que sustentam a lógica da corrupção sistêmica. Nesse caso, novos escândalos continuarão surgindo não como rupturas, mas como manifestações periódicas do mesmo equilíbrio institucional, corroendo confiança e legitimidade.

 

 

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