Sem fronteiras: a rede internacional da extrema-direita e o lugar do bolsonarismo

Nos dois primeiros artigos desta série, investiguei o que é a extrema-direita e como seus movimentos estão ameaçando fundamentos da democracia liberal. Vimos que ela não é homogênea. Algumas chegam a rejeitar a própria democracia. Agora, a pergunta é outra: como essas correntes se articulam além de fronteiras nacionais e onde se localiza o bolsonarismo nessa rede?

O trabalho do Projeto Global contra o Ódio e o Extremismo (Global Project Against Hate and Extremism/GPAHE) mostra que a articulação vem sendo feita especialmente por conferências internacionais.  A publicação de 2024 relata 302 conferências realizadas entre 2000 e 2024, em 35 países, com cerca de 3 mil palestrantes e 1.800 organizações.

Uma das principais conferências é a CPAC (Conservative Political Action Conference), originada nos Estados Unidos (1974), com viés conservador. Passou a se constituir um dos principais espaços da articulação da extrema-direita e ganhou versões no Brasil, desde 2019, e na Hungria, desde 2022. O Foro de Madrid, lançado em 2020, e as conferências do Conservadorismo Nacional (NatCon), iniciadas em 2019, cumprem papel semelhante. Essas organizações não são idênticas, e nem todos os participantes pensam igual. Mas compartilham discursos, campanhas e leituras da realidade que atravessam fronteiras e alimentam identidades políticas contrárias à democracia liberal.

O historiador Steven Forti, autor de Extrema derecha 2.0, descreve esse conjunto como uma grande família global, com laços transatlânticos e uma densa rede de think tanks, fundações e institutos que promovem uma agenda comum e movimentam grandes somas de dinheiro. Trata-se de uma infraestrutura internacional de circulação de lideranças, ideias e estratégias que, para serem mapeados em profundidade, exigiriam um trabalho de fôlego que ultrapassa as possibilidades desta série. Por isso, vou me ater aos Estados Unidos e ao Brasil e, com um alerta, de que são levantamentos preliminares, para os quais vou cuidar de deixar todas as referências.

Do Trumpismo ao neorreacionarismo ao poder nos EUA

Em O Iluminismo das Trevas (2025), Arnaud Miranda mostra que o trumpismo reúne as correntes do nacional-populismo, do pós-liberalismo conservador e do neorreacionarismo ligado a setores da indústria tecnológica. Este último, o mais radical, defende o fim da democracia liberal e sua substituição pelo Estado-empresa. De corrente marginal, passou a ter conexões com setores influentes da política e da economia norte-americanas.

Peter Thiel, cofundador do PayPal e da Palantir, aproxima ideias neorreacionárias, recursos financeiros e lideranças políticas. O vice-presidente J. D. Vance, que tem relação política e financeira com Thiel, já citou publicamente Curtis Yarvin, principal formulador do neorreacionarismo, ao defender mudanças profundas na administração do Estado. Para Miranda, ideias e personagens dessa corrente passaram a integrar a coalizão que chegou ao centro do poder nos Estados Unidos, conforme infográfico a seguir:


Onde o bolsonarismo entra nessa trama?

É possível identificar com alguma clareza como esse movimento surge na rede da extrema-direita.  Importante ressaltar que esse lugar não parece ser pequeno. No link para seus relatórios o GPAHE tem uma figura que expõe seis faces: Trump (EUA), Duterte (Filipinas), Zuckerberg(EUA), Modi (India), Wilders (Países Baixos) e Bolsonaro.

Bom considerar de início, que o avanço dos Bolsonaros na política nacional foi meteórico. Em 2016, quando Trump foi eleito nos EUA, 1º mandato, o Jair Bolsonaro era um deputado federal do chamado baixo clero, defensor da ditadura e torturadores; Eduardo tinha sido recém-eleito para deputado federal por São Paulo; e Flávio, um deputado estadual inexpressivo do Rio de Janeiro.

Dois anos depois, a extrema-direita internacional tinha uma chance de ouro para interferir no centro de poder do Brasil. Havia trauma social pelo desvendamento das relações espúrias entre empresas, governos, políticos e burocratas – Lava-Jato. Como sempre acontece, a sociedade precisa de Judas, o PT, até pela sua posição no governo e responsabilidade em muitas das ocorrências, era a melhor escolha. E a família Bolsonaro era também a melhor aposta, pessoas de baixa expressão intelectual e política, com alguma suspeição de envolvimento com milícia, violência e corrupção (rachadinha, emprego fantasma), que mais tarde viria a ser objeto de investigações pela justiça. Na hipótese de um possível plano de domínio dos Estados Unidos, seriam a ponta de lança perfeita para alinhar os dois países

Em menos de 3 anos, em 2019, Eduardo Bolsonaro é a figura que consta como mediador para trazer a CPAC para o Brasil em 2019. No início de 2019, segundo levantamento da Agência Pública, Eduardo foi o escolhido por Steve Bannon (integrante da extrema-direita dos EUA, tendo sido o Executivo-chefe da campanha de Trump em 2016 e nomeado conselheiro da Casa Branca) para auxiliar a executar no continente o projeto de unir a extrema-direita global e derrotar a esquerda. Mas, antes disso, em 4 de agosto de 2018, antes da eleição do Bolsonaro, Eduardo se encontrou com Bannon nos EUA.  Já em 2020, Eduardo participa das iniciativas de criação do Foro de Madrid.

Jair Bolsonaro discursou na CPAC no Brasil e nos Estados Unidos (2023). Com a derrota e processos contra Jair, em 2025 Eduardo se instala nos Estados Unidos onde permanece em seu papel subalterno ao projeto trumpista, de colocar o continente nas mãos dos EUA.

Em 28 de março de 2026 é a vez de Flávio discursar na CPAC (EUA). Prometeu restabelecer uma estreita aliança com os Estados Unidos e ofereceu o Brasil como parceiro da agenda America First, sobretudo como fornecedor de minerais críticos para reduzir a dependência norte-americana da China. Apresentou o governo brasileiro como adversário dos interesses americanos e pediu que os EUA e o mundo livre exercessem pressão acompanhassem e monitorassem as eleições brasileiras para que fossem livres e justas. Diz que o Brasil está pronto para contribuir para fazer a América grande outra vez (MAGA) e, ao mesmo tempo, trazer prosperidade para o Brasil.

Dois outros fatos, publicados pela imprensa brasileira trazem outros indícios de que EUA. Dessa vez do mundo da tecnologia:

a)     a Rockbridge Network, rede de empresários e financiadores conservadores criada por Vance e Chris Buskirk, com Thiel entre seus financiadores, registrou em maio de 2026 a Rockbridge Brazil LLC. Nesse contexto, foi proposto pelo grupo a formação do Conselho de Tecnologia — O Atalho para a Prosperidade e Soberania Nacional, propondo um alinhamento do setor empresarial brasileiro aos Estados Unidos na disputa tecnológica com a China. O documento foi endereçado a Flávio, então pré-candidato. O conselho seria formado por 23 integrantes (19 estrangeiros), para agir em áreas como inteligência artificial, energia, defesa e minerais estratégicos. A proposta ainda não saiu do papel. Além disso,  empresários ligados à rede prestaram consultoria à pré-candidatura, segundo a Folha de São Paulo.

b)     entre final de abril e início de maio, Peter Thiel, cofundador do PayPal e da Palantir e um dos principais financiadores associados ao neorreacionarismo, participou, em São Paulo, de um encontro promovido pela Enter, startup brasileira de inteligência artificial. A visita ganha relevância porque veio uma comitiva de pelo menos 15 pessoas vinculadas à Thiel Capital e à Presidio One esteve hospedada no Hotel Rosewood, na capital paulista. Causa estranheza uma comitiva dessa dimensão para um encontro sobre IA, em momento de eleições brasileiras.

Este tema merece ser estudado com urgência. Em menos de 7 anos pessoas inexpressivas na política, com passado duvidoso, inclusive com indícios de relações com milícias, são a principal ponte entre o Brasil e aqueles que estão desenhando um cenário de domínio dos Estados Unidos sobre a América Latina para enfrentar o novo contexto geopolítico do mundo, com a China na liderança econômica do mundo.  A interferência das Big Techs nos processos decisórios de vários países, o princípio do Estados Unidos em primeiro lugar - America First, no novo governo Trump, rasgando os compromissos de multilateralismo, a nova política anunciada pelo governo Trump para a América Latina, com releitura da Doutrina Monroe, e a Estratégia de Segurança Nacional dos Estados Unidos, divulgada em dezembro de 2025, reafirma a pretensão norte-americana de ter a América para os americanos do norte.

Vale lembrar que Harari alertou que o domínio de novas tecnologias por grupos autoritários pode tornar a maioria da população do mundo irrelevante economicamente e politicamente impotente. Isso vale para países.

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Extrema-direita: de onde vem e até onde pode chegar?