Extrema-direita: de onde vem e até onde pode chegar?

No último artigo, sustentada em Cas Mudde e Arnaud Miranda, mostrei que extrema-direita pode ser entendida como as correntes situadas mais a direita do espectro político que se propõem a esvaziar ou substituir pelo menos um dos fundamentos da democracia liberal: igualdade política, bem comum, pluralismo político e mecanismos de controle do poder, dentro

Para entender seu surgimento, voltemos no tempo. Em “21 lições para o século 21” (2018), Yuval Noah Harari afirma que a democracia liberal resulta de um processo histórico de quatro séculos. Se consolidou no século XX, quando três grandes narrativas disputavam a organização política: o liberalismo, o fascismo e o comunismo. O fascismo teria sido derrotado na Segunda Guerra; o comunismo soviético, como projeto global concorrente do liberalismo, perdeu força com a queda do Muro de Berlim, em 1989, e a dissolução da União Soviética, em 1991. A democracia liberal parecia caminhar para a hegemonia.

O século XXI veio desmentir essa percepção. Nele se aprofunda uma crise de confiança na democracia liberal. A saída apontada pelo autor é reformá-la por dentro, preservando seus fundamentos. Caso não se tenha sucesso, o risco é vê-la enfraquecida diante de autocratas, movimentos autoritários e extrema concentração do poder tecnológico, especialmente nas áreas de inteligência artificial e biotecnologias capaz de transformar profundamente a condição humana.

De onde vêm os riscos? O comunismo sobrevive na China, com contornos muito próprios, mas não apresenta um projeto de mobilização interna às democracias liberais, voltado a desestabilizá-las.  A ameaça autoritária que vem se organizando por dentro das democracias vem de movimentos da extrema-direita e é sobre este tema que temos que nos aprofundar para conseguir defender a democracia liberal, para ter depois a oportunidade de reformá-la por dentro.

Para entender mais a fundo a extrema direita, comecemos pelo fascismo. Com auxílio de Robert O. Paxton (Anatomia do Fascismo, 2004), podemos entender o fascismo como regime político autoritário marcado pela mobilização obsessiva de massas vítimas de declínio, medo, humilhação e/ou derrotas. Propaga ideias de unidade e pureza para mobilizar, em colaboração com elites tradicionais ou econômicas, grupos que dispostos a abandonar as liberdades democráticas e aceitar a violência, sem limites éticos ou legais, para promover "limpeza interna" e expansão externa. Neste contexto, o nazismo pode ser entendido como modalidade específica de fascismo, marcada pela presença intensa do racismo biológico e do antissemitismo. Dor, medo e humilhação transmutando em autoritarismo, violência e horror.

A despeito de a maioria dos movimentos atuais de extrema direita ter se fortalecido na esteira das crises contemporâneas das democracias ocidentais e nem todos terem características fascistas, a estratégia de mobilização das massas é similar à utilizada pelo fascismo. Como consideram que a democracia liberal foi longe demais em participação e direitos,, buscam, a partir do nosso voto, o poder para reduzir ou eliminar os próprios fundamentos democráticos.  

Como fazem isso? Eles utilizam desafios reais, ainda não resolvidos em muitas democracias liberais, de problemas que nos causam medo e insegurança - violência, corrupção, desemprego, pobreza - para convencerem multidões a apoiarem propostas políticas que representam a renúncia de esteios essenciais à continuidade do projeto democrático. Como isso é possível?

Se Paxton ajuda a entender a origem, Cas Mudde, em The Far Right Today (2019), auxilia no entendimento do que veio depois. Ele identifica quatro ondas de extrema-direita contra a democracia liberal:

1. Neofascismo (1945–1955): tentativa de reorganizar o fascismo derrotado, defendendo a rejeição da democracia e restauração de modelos fascistas.

2. Populismo de direita (1955–1980): contestação das elites políticas, do Estado de bem-estar e de transformações sociais do pós-guerra. Ex-fascistas participaram de vários desses partidos, mas, segundo Mudde, os partidos não podem ser classificados como neofascistas. Opunham-se a consensos do pós-guerra, sem rejeitar a democracia.

3. Direita radical (1980–2000): expansão eleitoral de partidos nacionalistas e autoritários, que eram marginais, fortalecidos sobretudo com agenda anti-imigração e anti-corrupção. Sustentam democracias eleitorais, mas contestam princípios liberais, especialmente o pluralismo e os direitos de minorias.

4. Normalização (2000–presente): o discurso nacionalista, autoritário e populista deixa as margens e é adotado por partidos tradicionais de direita. A contestação dos fundamentos da democracia liberal passa a ser feita por dentro de governos com efeito sobre as regras políticas.

Até onde essa ameaça pode ir?  

Em O Iluminismo das Trevas(2025), Arnaud Miranda foca em um dos pensamentos mais radicais da extrema-direita, o pensamento neorreacionário, desenvolvido principalmente nos Estados Unidos por autores como Curtis Yarvin e Nick Land, com circulação e interlocutores em setores do universo empresarial e tecnológico do Vale do Silício. É o questionamento mais radical da legitimidade da democracia liberal, sustentados em cinco ideias:

·      Hierarquias naturais: as desigualdades entre indivíduos e grupos seriam inevitáveis e, em determinadas formulações, justificariam posições desiguais de poder.

·      Pessimismo antropológico: a violência, o conflito e a disputa pelo poder seriam componentes permanentes da condição humana, tornando a ordem mais importante que os ideais igualitários.

·      Rejeição da democracia: a democracia é considerada um regime político incapaz de assegurar estabilidade e prosperidade. Em seu lugar, propõem estruturas centralizadas e hierárquicas de autoridade.

·      Direito de saída: em vez de participar das decisões coletivas, o indivíduo poderia abandonar uma comunidade política e procurar outra. A relação com o governo se aproximaria daquela entre cliente e prestador de serviços.

·      Otimismo tecnológico: a tecnologia é vista como instrumento de reorganização social e, em algumas vertentes, como caminho para transformações radicais da condição humana.

O pensamento neorreacionário interessa como horizonte extremo: mostra até onde esse campo já foi capaz de ir nas ideias, ainda que seja de uma corrente específica.  Mostra também o risco, caso não encontrem resistências. Uma das propostas mais expressivas desse pensamento é o Estado-empresa: uma organização política administrada por uma autoridade central, sem os mecanismos tradicionais de representação e controle democrático, em que ao indivíduo resta apenas o direito de sair. Essa proposta dialoga com um cenário inquietante descrito por Harari, em seu livro de 2018.

Segundo esse autor, a combinação de inteligência artificial e bioengenharia, caso fique sem controle, poderia dividir a humanidade entre uma pequena elite aprimorada e uma massa sem valor econômico nem força política. Não apenas classes, mas países e continentes inteiros poderiam se tornar irrelevantes (p. 111). E quando as pessoas deixam de ser necessárias, o Estado perde o incentivo para cuidar de saúde, educação e bem-estar: "É perigoso ser obsoleto", resume o autor (p. 109). Acresço que, sob o domínio de autoritários ou fascistas, o futuro se fecha em si mesmo para a maioria absoluta da humanidade.

Harari descreve o risco. O pensamento neorreacionário oferece a justificativa para nossa preocupação. Num Estado-empresa, a saída é privilégio de quem tem recursos: a maioria ficará sem voto e sem saída. É a negação mais radical dos dois princípios que propus como régua para pensarmos onde mora o perigo da extrema-direita. Reduz a zero os fundamentos da democracia liberal: a igualdade política e o bem comum.

No próximo artigo, vamos examinar os integrantes da extrema-direita e seus movimentos, para identificar se e como o bolsonarismo se insere nessas correntes.

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Extrema-direita: quando parte da direita quer transformar a própria democracia