Retomar o fôlego em tempos de ruptura: o balanço entre engajamento e contemplação

O ano de 2025 se encerrou sob o signo da instabilidade. No plano internacional, o mundo assistiu à intensificação da crise democrática, à continuidade de guerras que corroem não apenas territórios e horizontes morais, mas vidas concretas de inocentes, aprofundando a sensação de falta de futuro.

A política externa dos Estados Unidos, oficialmente denominada America First Foreign Policy, revivendo a doutrina Monroe, de 1823, passou a ser aplicada de forma mais direta e coercitiva à América Latina, defendendo claramente o interesse imperialista de hegemonia no hemisfério, com ameaças às soberanias nacionais. Em termos globais, além de atacar o multilateralismo, os EUA promovem a erosão institucional, o desprezo por pactos de todas as naturezas e o uso da ameaça como método explícito.

Internamente no Brasil, 2025 terminou com a finalização do julgamento e condenação dos militares envolvidos na tentativa de golpe de 8 de janeiro de 2023. Mais uma vez, ficou evidente que os brasileiros se dividem quanto às condenações. Uma pesquisa do Datafolha em dezembro de 2025 mostrou que 50% consideraram justa a prisão de Bolsonaro e 40%, injusta, o que sinaliza risco de fratura social, com consequências importantes para o processo democrático.

Também a prisão de Daniel Vorcaro, em 17/11, seguida da liquidação do Banco Master pelo Banco Central, colocou em evidência posições controversas, para dizer o mínimo, de autoridades dos Três Poderes, aprofundando a percepção de um ambiente institucional marcado por baixa legitimidade, privilégios cruzados e uma perigosa normalização do inaceitável. Tudo que veio à tona, em sequência, tem sinalizado para os níveis profundos de corrupção sistêmica que ainda predomina em terras brasileiras.

Pessoalmente, foi neste contexto que o tempo de férias de 45 dias produziu um deslocamento importante. A ruptura com uma focalização mental constante em demandas sociais me permitiu o acesso com mais profundidade a uma condição de superação de diálogos internos que se impõem à nossa revelia, como consequência das externalidades do mundo. Silêncio de alma, profundo. Essa experiência, ainda que sempre inconstante, sinaliza para a necessidade da busca da leveza, clareza e conexão com o momento presente, como prioridade existencial.

Assim, retomando agora a abertura para a reflexão e responsabilidade individual e coletiva, recupero como caminho possível de equilíbrio entre prática-saúde o diálogo permanente entre o engajamento-contemplação, pilar fundamental da filosofia ocidental e oriental quanto das tradições religiosas, para o conhecimento e a conexão interior. Sem esse enraizamento, nos tornarmos doentes e presas fáceis do tumulto, das crenças mágicas, do jugo de ideologias fechadas e da terceirização do pensamento. Com ele, a possibilidade de bem-estar e distância crítica, para intervir no mundo social com alguma lucidez e autonomia.

É a partir dessa compreensão que este blog inicia, em 2026, um processo de transformação. Seguiremos refletindo sobre os desafios contemporâneos das democracias, especialmente as imperfeitas onde a corrupção sistêmica é mais contundente em seus efeitos. Mas abriremos, de forma mais deliberada, espaço para contribuir com o debate de como nós, a despeito de emergirmos do social, podemos construir espaço interno para deliberamente cuidar de nós próprios e encontrarmos uma autonomia relativa em nossa capacidade de existir com reflexão e contemplação.

Que este novo ciclo amplie o nosso debate, nos estimule a trocas honestas capazes de fortalecer nossos vínculos pessoais e coletivos.

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8 de janeiro de 2023: o dia que não acabou…