A pergunta agora é como transformar a enorme mobilização da sociedade brasileira em força permanente de transformação democrática.
As eleições de 2026 produziram uma experiência política que merece exame atento. Flávio Bolsonaro chegou ao segundo turno à frente, com 47,03% dos votos válidos, sustentado por ampla articulação partidária e por apoios de governos da direita internacional, especialmente dos Estados Unidos. Lula, que terminara o primeiro turno em segundo lugar, com 45,16%, venceu a disputa por 51,79% a 48,21%.
No intervalo entre os dois turnos, a sociedade civil ocupou ruas, redes sociais e espaços públicos de debate. O peso dessa mobilização no resultado ainda precisa ser estudado. Sua capacidade de organização e de intervenção política, porém, merece reconhecimento desde já.
Depois de uma disputa tão intensa, é natural que surjam narrativas épicas e heróis. O chamado "exército do Janones", que, em 3 semanas organizou em um canal de WhatsApp com mais de 10 milhões de pessoas, merece reconhecimento e certamente será será estudado internacionalmente como um caso de mobilização bem-sucedida. Mas, para ganhos permanentes, precisamos buscar o significado mais profundo do feito brasileiro.
O que tornou possível tamanha mobilização? Como pessoas de trajetórias e orientações diferentes convergiram em torno de objetivos comuns? E, sobretudo, como transformar essa capacidade de ação coletiva em força permanente de aperfeiçoamento da democracia?
Se ficarmos na celebração e na mitificação, chegaremos a 2030 diante dos mesmos problemas, convocados mais uma vez a reunir forças contra ameaças às instituições democráticas.
A frustração dos cidadãos tem razões concretas
Pesquisas de organizações que acompanham a democracia, como V-Dem, Latinobarómetro e LAPOP, mostram queda constante da confiança na política e da crença na legitimidade das instituições na maioria das democracias do mundo. O Latinobarómetro 2025-2026, divulgado em outubro, mostra de onde vem o desencanto. Na América Latina, 73% dizem que o Estado fez pouco ou nada por eles nos últimos três anos. A satisfação com hospitais públicos caiu de 46% para 28%, e com a educação pública, de 55% para 40%. Só 15% confiam nos partidos, 76% não se sentem representados pelo parlamento e 79% acham que o crime organizado tem muito poder. No Brasil, apenas 41% consideram a democracia preferível a qualquer outra forma de governo.
Não é a democracia que as pessoas rejeitam, e sim uma democracia que não entrega. Trazendo essa realidade para o Brasil, o primeiro passo é admitir que temos razões concretas para estarmos frustrados com as instituições brasileiras. Nossa Constituição assegura direitos fundamentais, eleições periódicas, separação de poderes e mecanismos de participação e, por isso, merece ser defendida. Mas entre a Constituição e o que vivemos há um oceano.
Em 2025, o Brasil teve nota 35 (escala de zero a cem), no Índice de Percepção da Corrupção da Transparência Internacional - 107ª posição entre 182 países e territórios. Na segurança pública, o Atlas da Violência 2026 registrou 42.590 homicídios em 2024, o menor número da série histórica. O mesmo Atlas, porém, mostra que as mortes violentas sem causa definida, cresceram 88,6% em um ano. O sentimento é de insegurança.
A isso se somam desigualdade crônica, normalização de práticas antiéticas e do autointeresse permeando decisões institucionais interesses. Trata-se de caldo social propício ao surgimento de movimentos autoritários. Robert O. Paxton, em A anatomia do fascismo, mostra como esses movimentos cresceram exatamente durante crises, ressentimentos coletivos e descrença na capacidade das instituições de oferecer soluções.
Nessas eleições, a mobilização da sociedade civil, canalizada politicamente, derrotou um candidato que, no início em maio de 2026, estava nos Estados Unidos discursando em evento da CPAC, instituição que abriga a extrema-direita de diferentes partes do mundo. Vencemos dessa vez, mas se esse contexto de revolta permanecer, quem garante a vitória da democracia na próxima?
Democratizar a democracia
E agora, como prosseguir?
Boaventura de Sousa Santos traz o remédio de democratizar a própria democracia. Isso significa ir além dos limites da representação tradicional, enfrentando as relações desiguais de poder entre sociedade e Estado, para interferir diretamente nas tomadas de decisão das instituições. Em 2026, a sociedade brasileira deu passos nessa direção. Ela se organizou e mostrou capacidade de agir em escala nacional.
Lisa Herzog acrescenta uma dimensão essencial: a democracia precisa de uma infraestrutura de conhecimento que permita aos cidadãos compreender as questões públicas, compartilhar informações e participar das decisões de forma qualificada.
O trabalho feito nas eleições revelou o embrião dessa infraestrutura. Ainda informal, ela produz conteúdo de qualidade e mobiliza para causas importantes. O desafio é que ela sirva a todo o país, e não apenas a quem votou de um lado. Uma democracia mais forte não se constrói contra quase metade do eleitorado.
Bets: uma pauta que une o país
A proibição das bets oferece uma oportunidade rara. Segundo o Datafolha, 78% dos brasileiros apoiam a proibição das apostas e dos cassinos online, e só 18% são contra. O apoio é majoritário em todos os segmentos pesquisados: 82% das mulheres, 74% dos homens, 81% dos evangélicos, 76% dos católicos, 85% dos eleitores de Lula e 70% dos eleitores de Flávio Bolsonaro.
Poucas vezes uma pauta uniu tanto um país que acaba de sair dividido das urnas. Não é a causa de um candidato. É uma demanda de famílias que veem o endividamento e o vício chegarem a suas casas.
A medida provisória que proibiu as bets está em vigor, e o ministro Luiz Fux, relator das ações no STF, a manteve válida. Hoje, o Supremo realiza uma audiência pública, pedida pela própria Advocacia-Geral da União, para ouvir governo, entidades do setor, CBF e clubes de futebol. Mais adiante, caberá ao Congresso decidir se converte a MP em lei.
É nessas instâncias que a sociedade precisa ser ouvida. O abaixo-assinado https://betsnuncamais.com.br/ é uma forma de fazer isso. Milhões de assinaturas mostrarão ao Ministro Fux, ao STF e a deputados e senadores que a proibição tem apoio amplo e suprapartidário.
Esse é o primeiro teste da nossa capacidade de democratizar a democracia: transformar uma maioria difusa em voz organizada, que fala com todas as instituições e não pertence a nenhum candidato.
A continuidade da luta
A democracia não se sustenta somente com resultados de eleições. Ela precisa da participação e da incidência coletiva no cotidiano das decisões do país.
Nos próximos artigos, continuarei a tratar desse desafio para favorecer a continuidade da Primavera Brasileira que encantou o mundo.
Por ora, fica o convite: vamos todos e todas assinar o abaixo-assinado contra as bets e compartilhar em nossas redes sociais, além de comentar aqui no Blog a sua opinião.